Uma noite de ponchas em Câmara de Lobos
Há um momento, algures pela segunda poncha, em que a sala deixa de parecer um bar e começa a parecer a sala de estar de alguém. Uma televisão pregada no canto mostra futebol sem som. Dois homens que claramente ali estão desde o almoço discutem, com calma, um motor de barco. Ninguém olha para o telemóvel. Tinha ido a Câmara de Lobos com a intenção de tomar uma bebida e ver o porto onde Churchill pintou. Fiquei por três bares e saí com uma opinião mais forte sobre uma bebida do que alguma vez tive sobre qualquer outra coisa numa ementa.
Porquê Câmara de Lobos e não o Funchal
A poncha está hoje em toda a ilha. Pode pedir-se uma versão dela na zona velha do Funchal, com luzinhas penduradas por cima e uma ementa plastificada a oferecer sete sabores de fruta em sete cores néon, e vai saber bem, mas não vai ser o que os pescadores bebiam em Câmara de Lobos cem anos antes de alguém pensar em pôr maracujá num copo.
Câmara de Lobos é uma vila piscatória em atividade, cerca de quinze minutos a oeste do Funchal, encostada a falésias negras, com um porto ainda cheio de pequenos barcos pintados. É também o local onde Winston Churchill montou o cavalete em janeiro de 1950 e pintou a baía, um pormenor que todos os guias mencionam e quase nenhum explica devidamente — veio pela luz, ficou uma quinzena, e o pequeno monumento na marginal assinala mais ou menos onde se sentou.
Fui pela poncha, não pela curiosidade de Churchill, ainda que as duas se cruzem na mesma rua.
O que eu estava mesmo a beber
A poncha começa com aguardente de cana — um destilado transparente e de alta graduação, obtido da cana-de-açúcar, a mesma base que noutros lugares se torna rum, mas que aqui nunca se chama rum. A isto junta-se mel, não açúcar, e citrinos, e mistura-se tudo com um pau de madeira chamado caralhinho, rodando-o vezes sem conta no copo até o mel se dissolver e os óleos do limão subirem através da aguardente. Sem gelo, ou quase nenhum. Sem shaker. Chega turva, dourada pálida, e mais morna do que se esperaria de uma bebida forte.
A versão de limão chama-se poncha pescador — e é a que tenho em mente quando digo poncha “verdadeira”. É ácida, ligeiramente doce, inequivocamente alcoólica ao fim de dois goles, e sabe a algo que não encontrei em mais lado nenhum. É também, segundo todos os relatos em que confio de quem cresceu nesta costa, a receita original: o que os homens bebiam nos barcos e nos bares à volta deste porto antes de a poncha ser uma palavra conhecida dos turistas.
Os bares, por ordem
Comecei num sítio a duas ruas da marginal, o tipo de bar com um letreiro pintado à mão, quatro mesas, e um empregado que fez a minha poncha ao balcão, à vista de todos — aguardente medida a olho, uma colher generosa de mel, meio limão espremido e depois deixado inteiro dentro da mistura, e o caralhinho a trabalhar durante o que pareceu mesmo muito tempo até ele ficar satisfeito. Não perguntou que tipo eu queria. Só havia um tipo.
O segundo bar ficava mais perto do porto, mais barulhento, com um grupo de homens locais que claramente se conheciam há décadas e que arranjaram lugar à mesa deles sem que eu tivesse de pedir duas vezes. Aqui a poncha veio ligeiramente mais doce, o mel mais presente, e alguém me explicou, com a paciência de quem explica coisas a visitantes que se esforçam, que a poncha pescador tem esse nome porque era preparada nos barcos para aquecer e desinfetar o que quer que se tivessem cortado nesse dia — um pormenor que talvez seja parte lenda e parte facto, mas que ninguém naquele bar ia deixar-me pôr em dúvida.
A terceira paragem escolhi-a mal de propósito, um estabelecimento na marginal claramente virado para os passageiros de cruzeiros, para ver o outro lado do argumento. A ementa tinha oito sabores de poncha — maracujá, morango, kiwi, um azul berrante que nunca consegui identificar — cada um servido já pré-misturado de um jarro, doce, gelado e perfeitamente agradável, à maneira como um bom cocktail é agradável. Não era desagradável. Também não era o que eu tinha bebido vinte minutos antes. Era um rum sour a usar o nome da poncha.
Porque acabei por tomar um lado
Não acho que as ponchas de fruta sejam uma fraude, nem que quem bebe uma esteja a fazer algo errado. São um ramo legítimo, popular e genuinamente saboroso da mesma árvore, e numa tarde quente uma poncha de maracujá bem gelada é uma escolha fácil. Mas tratar todas as versões como equivalentes esconde algo que importa aqui: a poncha pescador, feita apenas com limão, mel e aguardente de cana, esmagada à mão com um caralhinho, é a bebida que Câmara de Lobos realmente inventou. As versões de fruta vieram depois, para quem passava por ali. A de limão é a que quem vive aqui ainda pede para si próprio, o que costuma ser o sinal que decide este tipo de discussão.
Se só tiver uma noite para isto, evite os terraços à beira-mar com as ementas plastificadas e caminhe uma ou duas ruas para o interior, na direção de onde vier o barulho, o futebol e os homens a discutir sobre motores de barco. Peça poncha pescador especificamente — o próprio nome tende a garantir um copo melhor, porque mostra que sabe mais ou menos o que está a pedir.
Chegar e conhecer bem a vila antes
Câmara de Lobos compensa a visita antes de escurecer. As falésias sobre o porto, a costa de areia negra e os barcos de pesca puxados para a rampa merecem ser vistos à luz do dia, e o Cabo Girão, uma das falésias marítimas mais altas da Europa, fica a uma curta distância de carro acima da vila, para quem quiser a vista que dá sentido à geografia antes de se sentar para beber.
Um passeio guiado a pé por Câmara de Lobos com um local é a forma mais simples de perceber bem a história desta vila piscatória — onde Churchill se sentou de facto, a que capela pertence cada santo, porque é que os barcos têm aquelas cores — antes de deixar a noite transformar-se numa ronda de bares por conta própria.
um passeio guiado a pé por Câmara de Lobos com um local
vale a pena fazer antes de o sol se pôr, não depois — é muito mais fácil encontrar os bons bares já a conhecer as ruas. Se estiver hospedado na zona velha do Funchal,
um passeio pela zona velha que termina com uma poncha local a sério
é uma introdução mais suave, mais perto do seu hotel.
Para uma perspetiva diferente da costa entre as duas vilas,
um passeio de tuk-tuk do Funchal a Câmara de Lobos com sky walk
percorre as vistas do alto da falésia durante o dia. E se a vila lhe der vontade de conhecer mais das montanhas por cima dela,
uma viagem de tuk-tuk até ao miradouro da Eira do Serrado
é um pequeno desvio para o interior.
Uma nota sobre beber e conduzir: se alugou um carro, como fazem a maioria dos visitantes aqui, planeie a sua noite de ponchas para uma altura em que fica hospedado perto ou volta de táxi — a aguardente de cana não é uma bebida para subestimar, e as estradas à saída de Câmara de Lobos são íngremes e escuras. Para saber mais sobre andar pela ilha sem depender de conduzir todas as noites, veja o nosso guia de erros a evitar na Madeira.
Poncha em Câmara de Lobos: as suas perguntas respondidas
Do que é feita realmente a poncha?
Aguardente de cana, um destilado transparente de cana-de-açúcar, misturado com mel e citrinos e esmagado com um pau de madeira chamado caralhinho até emulsionar. A versão de limão, a poncha pescador, é a original.
A poncha é o mesmo que uma caipirinha?
Não. Uma caipirinha faz-se com cachaça, açúcar e lima esmagada com gelo. A poncha usa mel em vez de açúcar, é esmagada em vez de agitada, e serve-se tradicionalmente sem gelo, mais próxima da temperatura ambiente.
As ponchas de fruta (maracujá, frutos silvestres) não são verdadeiras?
São bebidas verdadeiras e populares entre os visitantes, mas são uma variação moderna, pensada para o turismo. Os pescadores de Câmara de Lobos não inventaram a poncha com maracujá — inventaram-na com limão, mel e aguardente de cana.
Onde devo ir em Câmara de Lobos para beber poncha?
Os bares pequenos à volta do porto e nas ruas logo acima dele, longe dos restaurantes de beira-mar com ementas plastificadas, são onde os locais ainda pedem poncha pescador pelo nome.
A poncha é forte?
Sim. A aguardente de cana ronda tipicamente os 45-50% de álcool, e uma poncha não é diluída como um cocktail com gelo e misturadores. Duas já são uma sessão, não um aquecimento.
Posso fazer poncha em casa?
Precisa de aguardente de cana, difícil de encontrar fora da Madeira, além de mel, limão e um caralhinho. Sem a aguardente certa, torna-se um rum sour com mel — agradável, mas não é poncha.
Porque é que Churchill pintou em Câmara de Lobos?
Winston Churchill visitou a Madeira em janeiro de 1950 e pintou o porto piscatório de Câmara de Lobos a partir de um local hoje assinalado por um pequeno monumento, atraído pela mesma luz e pelos mesmos barcos que ainda trabalham na baía.
Para saber mais sobre a cena gastronómica e de bebidas para além desta vila, o nosso guia da poncha, a nossa introdução ao vinho da Madeira, e o nosso roteiro de onde comer por zona cobrem o resto da mesa da ilha.
E se o peixe for o próximo item na sua lista, comer peixe-espada preto pela primeira vez e algumas notas sobre água da torneira, gorjetas e outras pequenas coisas completam o lado prático, a par do nosso guia mais amplo de gastronomia da Madeira, um olhar sobre as quintas de vinho e a Festa do Vinho, o guia do Mercado dos Lavradores, e conselhos gerais para a primeira vez na Madeira se esta for a sua primeira visita à ilha.
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