Um Janeiro na Madeira: A Minha Crónica Honesta
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Um Janeiro na Madeira: A Minha Crónica Honesta

Aterrei no Funchal a dois de janeiro, três dias depois dos fogos-de-artifício que tinha visto no ecrã de um telemóvel, num voo atrasado, e passei o trajeto do aeroporto a fazer aquilo que toda a gente faz na primeira viagem à Madeira no inverno: a olhar para as encostas e a tentar perceber se tinha feito bem a mala. Levava um casaco polar para os picos e t-shirts para a costa, e acabei por precisar dos dois na mesma tarde.

Porque Fui em Janeiro

Tinha lido a página sobre a verdadeira época baixa da Madeira antes de reservar, que é o sítio honesto onde começar se quiser o detalhe sazonal em vez de um relato de sensações — este é esse relato. O que me convenceu quanto a janeiro em particular foi a aritmética: a multidão do Ano Novo e o espetáculo de fogo-de-artifício sobre o Funchal já tinham passado, os preços dos hotéis tinham baixado, e a ilha estaria supostamente no seu ponto mais vazio antes do Carnaval trazer de volta os visitantes em fevereiro. Queria ver se isso se confirmava nos trilhos, não só na receção do hotel.

A Versão do Funchal para o Inverno

Aqui fica a primeira coisa que ninguém me tinha explicado com clareza suficiente: não há uma única temperatura da Madeira em janeiro, há pelo menos três. No próprio Funchal andei de t-shirt a maior parte das tardes, algures entre os 19 e os 21°C, com o mar a uns 18 a 19°C, banhável se for corajoso. Vi duas pessoas a nadar mesmo junto ao passeio do Lido e muitas mais sentadas nos cafés da zona velha só com um casaco leve. Se alguém lhe der um único número para “a Madeira no inverno”, está a descrever apenas um de três lugares muito diferentes, e provavelmente não é aquele onde vai estar.

Câmara de Lobos, vinte minutos ao longo da costa, pareceu-me um ou dois graus mais quente ainda, resguardada e mais soalheira, e percebi de imediato porque é que Churchill costumava pintar ali em vez de no próprio Funchal.

O Norte Foi Outra História

Dois dias depois, subi e atravessei até ao Porto Moniz para as piscinas naturais, e a ilha mudou completamente algures perto dos túneis que atravessam o maciço central. O sul tinha estado seco e luminoso nessa manhã; o norte estava sob nuvem baixa e cinzenta, com uma chuva fina e persistente que não parou o resto do dia.

As piscinas estavam fechadas a banhistas porque a ondulação de inverno estava a rebentar sobre as rochas — vale a pena verificar com antecedência em vez de dar por garantido, porque isto acontece com regularidade em janeiro. Fiquei a ver a água em vez de nadar, o que foi um espetáculo à sua maneira, mas não foi a viagem que tinha imaginado nessa manhã de t-shirt.

É esta a troca que a Madeira impõe em janeiro: a estação húmida concentra-se no norte, e não é nada delicada a avisar antes de se atravessar a serra. Passei a consultar o estado dos trilhos do IFCN quase todas as manhãs depois disso, porque duas das levadas que esperava percorrer estiveram fechadas durante alguns dias após chuva forte — risco de deslizamento, não burocracia, e algo a respeitar.

Acima das Nuvens: Neve nos Picos

A verdadeira surpresa da semana foi subir. Tinha reservado uma

caminhada guiada até aos picos altos

à espera de vento forte e frio, e em vez disso encontrei geada nos passadiços perto do Pico do Arieiro e um pouco de neve mais adiante, em direção ao Pico Ruivo, que o nosso guia disse ter caído duas noites antes. Não era profunda, e desapareceu num dia, mas era neve a sério, em altitude, a uma hora de carro de uma vila costeira onde eu tinha andado de t-shirt nessa mesma manhã. Ninguém me tinha falado dessa possibilidade antes de eu ir, e acho que é o facto mais subestimado de um inverno na Madeira.

As noites lá em cima foram também as mais límpidas que já vi em qualquer lugar, frias o suficiente para exigir um casaco a sério, e voltei numa segunda noite para uma

sessão de observação de estrelas no Pico do Arieiro

que valeu inteiramente o despertador cedo e o frio — o ar de inverno naquela altitude é mais seco e mais parado do que no verão, e nota-se. Se preferir ver a mesma crista sem gelo debaixo dos pés, há bons conselhos sobre como vestir-se para o tempo na montanha que valem a pena ler antes de partir, seja qual for o mês.

A Ilha Depois dos Fogos-de-Artifício

O silêncio foi a parte que correspondeu à promessa. Restaurantes na zona velha do Funchal que dizem precisar de reserva em agosto aceitaram-me sem pestanejar. A fila para o teleférico do Monte foi de cinco minutos, não cinquenta. Uma

caminhada por uma levada até às lagoas da montanha

que eu esperava partilhar com um autocarro cheio de gente acabou por não ter quase ninguém — só eu, um morador a passear o cão, e o som da água no canal. É esse o verdadeiro argumento a favor de janeiro: não que o tempo esteja garantido, mas que a ilha lhe dá espaço para realmente a viver.

Tinha planeado uma excursão de um dia ao Porto Santo também, e é aqui que diria a quem estiver a ler para não construir um itinerário apertado à volta disso no inverno. A minha travessia de ferry foi cancelada na tarde anterior, sem aviso além de uma notificação na aplicação, por causa da ondulação no canal — a travessia depende das condições atlânticas de inverno, e não é algo com que se possa contar como em julho. Voei em vez disso, à última hora e a um preço pior do que teria pago reservando com antecedência, e correu bem, mas só porque tinha deixado um dia livre na agenda em vez de apostar tudo naquela travessia.

O Que Faria de Forma Diferente

Da próxima vez, deixaria mais folga nas duas pontas: um dia extra para o norte, caso a chuva feche um trilho que queira fazer, e um dia extra à volta de qualquer plano para o Porto Santo, em vez de um regresso no mesmo dia. Também levaria roupa para três climas em vez de um, porque é genuinamente o que a viagem exige — sandálias para o passeio marítimo, um impermeável a sério para a costa norte, e um casaco de verdade para qualquer coisa acima dos mil metros. O que não mudaria é o próprio calendário. Uma levada tranquila, uma noite fria e límpida na crista, e uma tarde costeira amena na mesma semana é uma combinação que os meses mais movimentados simplesmente não conseguem oferecer.

FAQ: Como é Realmente Janeiro na Madeira

A Madeira é suficientemente quente para visitar em janeiro?

O Funchal e a costa sul rondam tipicamente os 19-21°C em janeiro, ameno o suficiente para andar de t-shirt de dia, mas a costa norte é vários graus mais fria e húmida, e os picos altos podem descer para geada ou neve leve durante a noite.

Pode-se nadar na Madeira em janeiro?

O mar ronda os 18-19°C ao largo do Funchal, banhável para quem estiver habituado a água fria, embora a maioria dos visitantes prefira as piscinas do hotel e só alguns se aventurem no mar em janeiro.

Neva na Madeira?

Ocasionalmente, acima de cerca de 1.500 metros, perto do Pico do Arieiro e do Pico Ruivo, normalmente como uma leve camada que derrete num dia ou dois, em vez de se manter durante uma estação.

Os trilhos das levadas estão abertos em janeiro?

Alguns fecham temporariamente após chuva forte devido ao risco de deslizamento, sobretudo no norte mais húmido; vale a pena verificar o estado oficial dos trilhos todas as manhãs de uma viagem em janeiro.

O ferry para o Porto Santo é fiável no inverno?

Não — a ondulação de inverno no canal causa cancelamentos regulares, pelo que uma excursão de um dia ao Porto Santo em janeiro nunca deve ser o único plano para esse dia, e voar é um plano B mais seguro do que contar com o barco.

Janeiro é uma boa altura para evitar multidões na Madeira?

Sim, assim que termina o período de Ano Novo no início de janeiro, a ilha fica visivelmente mais sossegada do que em qualquer outro mês, à exceção de parte de novembro, com filas mais curtas no Monte e reservas de restaurante mais fáceis no Funchal.

O que devo levar na mala para a Madeira em janeiro?

Camadas para três climas diferentes num só dia: roupa leve para a costa, um impermeável a sério para o norte, e camadas quentes para os picos, onde as temperaturas podem rondar o zero antes do amanhecer.

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