Vale a Pena Visitar o Porto Santo Num Dia?
Opinião

Vale a Pena Visitar o Porto Santo Num Dia?

Já fiz o Porto Santo duas vezes: uma como excursão de um dia, apressada e ligeiramente contrariada, e outra como uma única noite, que acabou por ser uma das melhores decisões que tomei em três viagens distintas ao arquipélago. As duas experiências não tiveram quase nada em comum, e a diferença teve menos a ver com a ilha do que com a forma como lá cheguei.

A travessia decide o dia antes da ilha

Toda a gente planeia uma viagem ao Porto Santo em torno da ilha — a praia, o campo de golfe, a antiga casa de Colombo. Quase ninguém a planeia em torno da travessia, e esse é o erro. O ferry a partir do Funchal demora cerca de duas horas e quinze minutos e, no inverno, é cancelado com frequência suficiente para que tratá-lo como um horário fixo seja pedir uma manhã perdida.

Já estive no cais da marina do Funchal em janeiro a ver o painel de partidas mudar de “a horas” para “cancelado” sem aviso, sem oferta de remarcação além da travessia do dia seguinte, e com um autocarro já reservado para me levar de volta ao meu hotel perto do Funchal. Se a sua janela para a excursão de um dia é apenas um dia, acabou de o perder.

A alternativa é voar — quinze minutos, sem ondulação a preocupar, e um horário que se mantém mesmo com tempo que impediria o ferry de navegar. Não abordo aqui os horários, preços ou reservas de nenhuma das opções; é para isso que serve o guia do ferry, e sugiro lê-lo com atenção antes de se comprometer com um plano de um único dia. O que quero sublinhar é a forma da decisão: na Madeira, a travessia é a variável que faz ou desfaz o dia, não o tempo na ilha em si, que é sistematicamente melhor do que o da própria Madeira.

O que uma excursão de um dia realmente proporciona

Seja honesto consigo mesmo quanto às contas. Um ferry matinal deixa-o na Vila Baleira a meio da manhã. Subtraia o almoço, subtraia a caminhada de regresso ao porto com margem para a travessia de volta, e ficam-lhe talvez quatro horas de tempo efetivo na ilha. Isso chega para caminhar por um troço da praia, dar uma volta pela Casa de Colombo e tomar um café na praça.

Não chega para conduzir ou caminhar até ao Pico do Facho para a vista panorâmica sobre toda a ilha, e está longe de bastar para ver a praia como ela merece ser vista — como nove quilómetros ininterruptos de areia clara, e não os duzentos metros perto do terminal do ferry onde todos os outros excursionistas também estão.

Fiz o trilho panorâmico até ao Pico do Facho na minha segunda visita, com um guia que foi explicando a geologia e a história enquanto caminhávamos, e isso mudou por completo a forma como vi a ilha — o Porto Santo não é só “a ilha da praia”, é uma paisagem seca, quase lunar, que só faz sentido depois de a vermos do alto. Uma rota de meio-dia a pé pelos pontos altos da ilha explica o lugar melhor do que qualquer tempo passado na areia. Espremida numa excursão de um dia com regresso de ferry, essa caminhada simplesmente não cabe.

O que mudou quando fiquei a noite

Da segunda vez, fiquei uma noite. Essa única mudança reorganizou toda a viagem. Tive a praia às sete da tarde sem ninguém nela, e novamente às sete da manhã seguinte, antes de o primeiro ferry do Funchal sequer ter partido. A Vila Baleira ao anoitecer, depois de a multidão das excursões de um dia ter zarpado de volta, é uma vila diferente — mais tranquila, sem pressa, o tipo de lugar onde os poucos restaurantes perto da marina enchem de gente que realmente está a ficar, e não a olhar para o relógio.

Fiz a rota de caminhada Terra Chã e Pico Branco ao amanhecer, com a luz plana e dourada e o trilho vazio, e depois nadei antes do pequeno-almoço. Nada disso está ao alcance de quem apanha o último ferry de regresso ao Funchal.

Há também um argumento prático para pernoitar: desliga a viagem da imprevisibilidade da travessia. Se o ferry não operar no dia de regresso reservado, não fica preso com voos ou planos seguintes para reorganizar — fica apenas mais uma noite no Porto Santo, o que, depois de ter visto a praia ao pôr do sol, deixa de ser o desastre que à partida pareceria.

O meu veredicto honesto

Se tiver apenas um dia livre na Madeira e a previsão do tempo para a travessia parecer estável, faça a excursão de um dia — é melhor do que ignorar a ilha por completo, e uma caminhada guiada ou um curto passeio de barco pela costa aproveita bem as horas que tem. Um curto passeio de barco pela costa da ilha encaixa bem num horário apertado, já que não depende de encontrar sozinho o caminho depois de desembarcar. Se conseguir reorganizar tudo para ficar uma noite, faça isso em vez disso.

Não é uma melhoria marginal — é a diferença entre marcar o Porto Santo numa lista e realmente perceber porque é que quem já lá esteve continua a voltar. Para perceber como a ilha se compara à própria Madeira antes de decidir quanto tempo lhe dedicar, o nosso artigo Porto Santo versus Madeira expõe as vantagens e desvantagens, e se estiver a planear uma viagem mais longa pelas duas ilhas, o itinerário de uma semana Madeira e Porto Santo mostra como encaixar uma noite sem desorganizar o resto do plano.

Mais uma coisa a saber antes de reservar: o Porto Santo está dentro de uma reserva da biosfera protegida, e uma visita guiada a pé por ela percorre terreno — sistemas dunares, plantas endémicas — que de outra forma passaria despercebido. Se o mar estiver calmo, um

passeio de barco insuflável rígido ao longo da costa

é a forma mais rápida de ver falésias e enseadas a que não se chega a pé numa única tarde.

Para a caminhada ao ponto mais alto que mencionei antes, reservei o

trilho panorâmico guiado até ao Pico do Facho

, e para a rota mais longa na minha estadia noturna foi a

excursão de caminhada Terra Chã e Pico Branco

. Nenhuma delas resolve a imprevisibilidade do ferry. Apenas garantem que, seja qual for o tempo que tiver na ilha, não o passa a pensar por onde caminhar.

Mais além do Porto Santo, do outro lado da Madeira, ficam as Ilhas Desertas — um lembrete de que o arquipélago tem um terceiro ato que a maioria dos visitantes nunca chega a ver. Mas isso é conselho para outro artigo.

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