Uma História do Arquipélago da Madeira
Quando foi descoberta a Madeira e por quem?
Os navegadores portugueses João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira chegaram ao Porto Santo em 1418 e à própria Madeira em 1419, reclamando ambas para a coroa portuguesa. A Madeira é território português desde então e nunca pertenceu a Espanha nem às Ilhas Canárias.
Uma Ilha Vulcânica Vazia, à Espera de Ser Encontrada
Durante a maior parte da sua existência, a Madeira não teve qualquer história humana. A ilha ergueu-se do fundo do Atlântico como um vulcão há cerca de cinco milhões de anos, e quando alguém ali pôs os pés, essa atividade vulcânica havia cessado há muito, deixando para trás picos escarpados, ravinas profundas e uma densa floresta que cobria a terra da costa ao cume. Não havia aqui pessoas, nem vilas, nem estradas — nada além de aves marinhas, loureiros e o som da água a descer das montanhas em direção ao mar.
O mesmo se passava com o vizinho Porto Santo e as mais selvagens e pequenas Ilhas Desertas, mais ao largo. Ao contrário das Ilhas Canárias, a sul, que tinham uma população guanche residente antes da chegada dos europeus, o arquipélago da Madeira era terra vazia, à espera na margem de um oceano quase todo por mapear.
Essa vacuidade é importante, porque molda tudo o que se segue. Não há aqui uma história pré-colonial a recuperar, nenhuma civilização anterior cuja narrativa corra a par da portuguesa. A história humana da Madeira começa, de forma limpa, no início do século XV, com um punhado de navios e um príncipe em Portugal obcecado por avançar mais no Atlântico do que alguém alguma vez fizera.
1418 e 1419: Zarco, Teixeira e o Descobrimento
O descobrimento da Madeira não foi tanto um acidente quanto o subproduto de um projeto maior. O Infante D. Henrique, filho do rei de Portugal, patrocinava viagens ao longo da costa africana em busca de novas rotas e novos territórios, e em 1418 dois dos seus capitães, João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira, foram desviados por uma tempestade — ou exploraram deliberadamente mais além, consoante a versão que se leia — e avistaram uma pequena ilha.
Chamaram-lhe Porto Santo, gratos por terem encontrado ancoragem segura. Do Porto Santo, as tripulações conseguiam ver uma forma escura no horizonte a sudoeste: uma massa de terra maior, densamente arborizada. No ano seguinte, 1419, Zarco e Teixeira regressaram e desembarcaram nela. Chamaram-lhe Ilha da Madeira — pela floresta que a cobria quase por inteiro.
Um terceiro capitão, Bartolomeu Perestrelo, recebeu a tarefa mais pequena de povoar o Porto Santo, que governou como seu primeiro capitão-donatário. Ambas as ilhas foram formalmente reclamadas para a coroa portuguesa, e a colonização começou quase de imediato sob o sistema das capitanias, doações hereditárias concedidas pelo rei aos homens que haviam descoberto a terra. Este é o pormenor a reter, se nada mais ficar desta página: a Madeira é território português continuamente desde 1419.
Nunca foi espanhola, e nunca teve qualquer ligação administrativa às Ilhas Canárias, ainda que os dois arquipélagos se situem a poucas centenas de quilómetros um do outro e sejam por vezes confundidos por visitantes a planear uma viagem. Para uma comparação mais completa, o nosso guia Madeira versus Ilhas Canárias explica como os dois grupos de ilhas se desenvolveram de forma tão diferente.
Machico: O Primeiro Povoado
A tradição situa o primeiro desembarque, e o primeiro povoado da ilha, em Machico, na costa leste abrigada. A baía oferecia água doce e terreno razoavelmente plano perto da costa, o que a tornava um local prático para estabelecer uma base antes do trabalho mais difícil de desbravar o interior. Machico tornou-se a sede da capitania de Tristão Vaz Teixeira, e durante um período rivalizou com o Funchal como o povoado mais importante da ilha, embora a melhor ancoragem e a posição mais central do Funchal tenham acabado por prevalecer.
Machico ainda conserva hoje vestígios físicos desse período inicial, ao lado de um toque moderno surpreendente: a sua longa faixa de areia dourada foi importada em 2008 e não é uma praia natural, um pormenor que vale a pena conhecer se visitar a ilha à espera do litoral de areia negra vulcânica típico do resto da Madeira. Para a história local mais completa da vila, incluindo a lenda por trás da sua fundação, consulte a nossa página dedicada a Machico — este guia atém-se à história à escala do arquipélago e não repete o que aí é abordado.
Funchal: Uma Cidade Batizada com o Nome do Funcho
O Funchal, que cresceu até se tornar a capital da ilha e hoje acolhe cerca de 105 mil dos 250 mil residentes do arquipélago, tira o nome de algo quase comicamente pouco glamoroso: o funcho, a erva que os primeiros colonos que chegavam de barco encontraram a crescer com densidade à volta da baía, e o nome ficou. É um pormenor pequeno, mas diz algo sobre como funcionavam estes topónimos portugueses antigos — descritivos, práticos, ligados ao que as pessoas realmente viam ao desembarcar, e não a grandes afirmações históricas.
O porto natural do Funchal, abrigado dos ventos dominantes, tornou-o uma base muito mais útil do que Machico à medida que o tráfego marítimo aumentava, e a cidade tornou-se o centro administrativo e comercial da ilha poucas décadas depois do povoamento. O traçado da sua zona antiga, a Zona Velha, ainda reflete esses primeiros séculos, mesmo que a maior parte do que se vê ao caminhar pela Rua de Santa Maria hoje — incluindo as suas famosas portas pintadas — seja um acrescento muito mais recente ao traçado urbano.
Desbravar a Floresta: Fogo, Açúcar e uma Lenda Difícil
A ilha que os portugueses encontraram estava coberta quase por inteiro de densa floresta de louro, e transformá-la em terreno agrícola produtivo implicava desbravar grande parte dessa cobertura. Uma história bem conhecida, repetida em muitos guias, afirma que os primeiros colonos atearam fogo à floresta e que este ardeu durante anos até a terra se tornar utilizável — algumas versões chegam a sugerir que é daí que vem o próprio nome “Madeira”, embora a explicação mais direta seja simplesmente que os primeiros marinheiros ficaram impressionados com a densidade arbórea da ilha e a nomearam em conformidade.
Os historiadores encaram a história do incêndio com algum ceticismo; há pouca prova documental sólida de um incêndio prolongado durante anos, e pode tratar-se de um floreado posterior. O que é certo é que grandes áreas de floresta de baixa altitude foram desbravadas para a agricultura nos séculos XV e XVI, enquanto as encostas mais íngremes e menos acessíveis viradas a norte foram deixadas largamente intactas. Essa floresta sobrevivente é a Laurissilva, património mundial da UNESCO desde 1999 e o maior exemplo remanescente deste tipo de floresta atlântica outrora comum em qualquer parte do planeta — uma ligação direta e viva à paisagem que Zarco e Teixeira avistaram pela primeira vez.
Uma vez desbravado, o solo vulcânico fértil e o clima ameno tornaram a ilha bem adaptada à cana-de-açúcar, que os portugueses introduziram vinda da Sicília através do projeto atlântico mais amplo do Infante D. Henrique.
A Madeira tornou-se um dos maiores produtores de açúcar da Europa ao longo do século XV, trabalhado em boa parte por mão de obra escravizada trazida da África Ocidental — uma parte incómoda mas essencial da história económica inicial da ilha, e que precede as economias escravistas maiores e mais bem documentadas que mais tarde se desenvolveriam no Brasil português. A riqueza do açúcar construiu boa parte do Funchal antigo, incluindo a sua sé catedral, e durante um tempo tornou a ilha genuinamente importante para as finanças da coroa portuguesa.
Do Açúcar ao Vinho
O domínio da Madeira no açúcar não durou. Ao longo dos finais do século XV e do século XVI, colónias produtoras de açúcar maiores e mais baratas no Brasil e, mais tarde, nas Caraíbas, minaram as exportações da ilha, e os produtores madeirenses foram-se voltando gradualmente para uma cultura mais adequada a parcelas pequenas e a uma paisagem montanhosa: a vinha. Aquilo que começou como um produto local, cultivado para consumo próprio da ilha, transformou-se, quase por acaso da geografia, em algo muito mais célebre.
Os navios que percorriam as rotas comerciais atlânticas entre a Europa e as Américas faziam habitualmente escala no Funchal para se abastecerem de água e provisões, e o vinho que carregavam junto com esses mantimentos tinha uma qualidade invulgar: parecia melhorar em vez de estragar-se depois de semanas ou meses a balançar no porão de um navio no calor tropical. Essa descoberta acidental é, no essencial, a forma como começou a prática moderna de aquecer e envelhecer o vinho da Madeira, e é um tema suficientemente vasto para merecer a sua própria página em vez de um resumo aqui — este guia trata da história mais ampla da ilha, não das suas caves.
A Ligação Britânica
Nenhuma história da Madeira fica completa sem reconhecer o quanto o comércio britânico, e mais tarde o turismo britânico, moldaram a ilha ao longo dos séculos seguintes. Famílias mercantis inglesas e escocesas instalaram-se no Funchal a partir do século XVII para negociar em vinho, e os seus nomes — muitos ainda ligados hoje a caves de vinho e casas de comércio marítimo — tornaram-se entrelaçados na vida comercial da ilha.
Essa relação aprofundou-se nos séculos XIX e XX, quando a Madeira se tornou um destino de inverno na moda para britânicos abastados, uma mudança simbolizada de forma mais visível pelo Reid’s Palace, que abriu portas em 1891 e ainda hoje vive dessa mesma reputação. Winston Churchill pintou em Câmara de Lobos em 1950, e a associação resultante é algo que todo o visitante daquela vila piscatória ainda ouve contar. É um fio da história da ilha que vale a pena conhecer, ainda que o pormenor completo pertença mais às vilas e hotéis que toca do que a esta história geral.
Emigração, Autonomia e a Era Moderna
Tal como boa parte de Portugal atlântico, a Madeira atravessou longos períodos de dificuldades e emigração, sobretudo nos séculos XIX e XX, com os ilhéus a partirem em grande número para a África do Sul, a Venezuela e outros destinos em busca de trabalho que o limitado terreno agrícola da ilha não conseguia proporcionar. O século XX trouxe também à Madeira uma nota de rodapé inesperada na história real europeia: o último imperador Habsburgo, Carlos I da Áustria, morreu no exílio na ilha em 1922 e está sepultado na igreja de Nossa Senhora do Monte, acima do Funchal.
Após a Revolução dos Cravos de 1974 em Portugal continental, a Madeira recebeu o estatuto de região autónoma em 1976, com governo e assembleia regionais próprios sediados no Funchal, permanecendo plenamente parte da República Portuguesa e, desde 1986, da União Europeia. Vale a pena afirmar este estatuto com clareza, porque a confusão é suficientemente comum para merecer repetição: a Madeira não é espanhola, nunca foi administrada a partir das Ilhas Canárias, e os seus laços políticos passam inteiramente por Lisboa.
Onde a História Ainda É Visível Hoje
Boa parte da história inicial da Madeira tem de ser reconstruída a partir de documentos e topónimos, e não de edifícios sobreviventes, já que o clima húmido da ilha e as sucessivas reconstruções não foram gentis com as estruturas mais antigas. Ainda assim, há um punhado de lugares que permitem sentir-se perto dela.
A zona antiga do Funchal ainda segue o traçado original das suas ruas até ao porto, e o próximo Mercado dos Lavradores, apesar de ser um edifício dos anos 1940 e não colonial, dá continuidade a tradições comerciais que remontam a séculos. No Porto Santo, o museu da Casa Colombo assinala o local onde se acredita que Cristóvão Colombo terá vivido durante um período nos anos 1480, uma geração depois do descobrimento da ilha.
Para os dois capítulos desta história que merecem um tratamento mais completo do que uma história geral pode dar, escrevemo-los em separado: a história das casas de colmo de Santana, e o passado baleeiro mais recente da ilha no Museu da Baleia, no Caniçal. Ambas são histórias genuinamente locais, ligadas a vilas específicas das costas norte e leste, e nenhuma se encaixaria confortavelmente na narrativa mais ampla do arquipélago acima.
Se preferir ver as origens vulcânicas da ilha explicadas no terreno em vez de as ler, um
tour de geologia guiado que traça a formação vulcânica da ilha
cobre a história de tempo profundo que precede tudo o que se conta neste guia.
Para a história humana especificamente da costa leste, onde começa a história desta ilha, um
tour de dia inteiro pela Costa Leste que combina a área de Machico com o teleférico de Santana
liga vários dos lugares acima referidos num único dia de passeio, e um
safari 4x4 pela rota East Wonders
chega a parte do mesmo terreno com um guia à mão para completar os pormenores locais ao longo do caminho.
Uma Ilha Portuguesa, Ontem e Hoje
Vale a pena terminar onde este guia começou: tudo na história da Madeira, desde o desembarque de Zarco em 1419 até ao açúcar, ao vinho, aos mercadores britânicos e à autonomia do século XX, decorreu sob a coroa portuguesa e, mais tarde, sob a República Portuguesa. Não há aqui nenhum capítulo espanhol nesta história nem qualquer ligação administrativa às Ilhas Canárias, por mais próximos que os dois arquipélagos estejam num mapa do Atlântico.
O que está a visitar é uma ilha genuinamente portuguesa — remota, autónoma, e moldada ao longo de seis séculos por decisões tomadas primeiro na corte real de Lisboa e mais tarde no próprio governo regional do Funchal. Manter isto claro poupar-lhe-á mais do que uma conversa embaraçosa com um local, e é o facto único a que toda esta história continuamente regressa.
Se estiver a planear uma viagem à volta de tudo isto, o nosso itinerário de uma semana na Madeira e o guia para quem visita a ilha pela primeira vez são boas próximas paragens, e as páginas do Funchal e de Câmara de Lobos preenchem mais da textura do dia a dia por trás da história aqui contada.
História da Madeira, Respondida
A Madeira estava habitada antes da chegada dos portugueses?
Não. A Madeira, o Porto Santo e as Desertas estavam desabitadas quando os marinheiros portugueses desembarcaram em 1418 e 1419. Ao contrário das Ilhas Canárias, a sul, não há registo de uma população indígena aqui.
Quem descobriu a Madeira?
João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira, navegando sob as ordens do Infante D. Henrique, avistaram o Porto Santo em 1418 e desembarcaram na Madeira em 1419. Um terceiro capitão, Bartolomeu Perestrelo, governou mais tarde o Porto Santo.
Qual foi a primeira vila fundada na Madeira?
Machico, na costa leste, é tradicionalmente considerada o primeiro povoado da ilha, fundada pouco depois do desembarque de 1419 e atribuída como capitania a Tristão Vaz Teixeira.
Porque se chama Funchal ao Funchal?
O Funchal tira o nome de funcho, a planta que os primeiros colonos encontraram a crescer selvagem e em abundância à volta da baía onde hoje se ergue a cidade.
A Madeira pertence a Espanha ou às Ilhas Canárias?
Não. A Madeira é uma região autónoma de Portugal e sempre foi, desde a sua descoberta em 1419. As Ilhas Canárias, a cerca de 450 quilómetros a sul, pertencem a Espanha; os dois arquipélagos são países diferentes.
Os colonos incendiaram mesmo a floresta da ilha?
Uma lenda persistente afirma que os primeiros colonos incendiaram a densa floresta da ilha durante anos para desbravar terreno, e alguns dizem ser daí que vem o nome Madeira. Os historiadores tratam a história com cautela, mas o nome refere-se, de forma fiável, à floresta que outrora cobria a ilha.
Como é que a Madeira ficou conhecida pelo vinho?
A cana-de-açúcar foi a primeira grande exportação da ilha, mas com a produção de açúcar a deslocar-se para o Brasil e as Caraíbas nos séculos XVI e XVII, a economia da Madeira virou-se cada vez mais para o vinho, ajudada pelas escalas de navios no Funchal nas rotas comerciais atlânticas.
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