O Dia em que as Levadas Começaram a Cobrar
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O Dia em que as Levadas Começaram a Cobrar

A fila no Rabaçal que denunciou tudo

Já tinha caminhado no trilho das 25 Fontes uma vez antes, anos atrás, numa altura em que a única decisão no parque de estacionamento do Rabaçal era se apanhava o shuttle para baixo ou poupava o dinheiro e caminhava pela estrada de acesso. Por isso, quando cheguei numa manhã luminosa à espera da mesma rotina, não contava com uma fila, uma verificação de código QR e um guarda-florestal com um tablet a mandar pessoas embora.

Foi a primeira vez que ouvi falar disto. Desde 1 de agosto de 2021, todos os trilhos oficiais com numeração PR na ilha — incluindo as 25 Fontes — cobram uma pequena taxa, com reserva online antecipada, verificada no início do trilho. Ninguém no grupo com quem eu viajava tinha lido isso em lado nenhum antes de aterrarmos. Nem no guia, nem nos três artigos de blogue que tinha folheado na semana anterior, nem sequer no placard do hotel. É o tipo de detalhe que escapa à maior parte dos textos de viagem sobre a Madeira, porque é recente o suficiente para que muitos guias ainda não o tenham atualizado.

O que custa realmente

Aqui está o número, porque importa mais do que o princípio: cerca de 3 € por pessoa, por trilho, por dia. Não por semana, nem um passe para toda a ilha — por trilho. Se caminhar em duas levadas diferentes na sua viagem, paga duas vezes. É cobrado através de um sistema de reserva online e verificado com o seu documento de identificação ou referência de reserva num ponto de controlo antes de poder entrar no caminho.

Quero deixar claro o que isto não é. Não é caro. Uma família de quatro pessoas a fazer dois trilhos conhecidos ao longo de uma semana de férias fica pelos 24 € no total — menos do que uma ronda de bebidas na marina do Funchal. Não estou a escrever isto como uma queixa sobre dinheiro, e estaria a fazer-vos um desserviço se fingisse o contrário. Muitos artigos sobre a mudança exageram numa indignação que não corresponde ao valor real envolvido.

O que me surpreendeu não foi o preço. Foi a logística.

A parte que realmente muda a viagem

Antes disto, um passeio de levada era o tipo de coisa que se decidia ao pequeno-almoço. Vê-se uma boa janela de bom tempo, pega-se numa mochila, conduz-se até ao início do trilho, caminha-se. Essa espontaneidade desapareceu praticamente para os trilhos com nome. Como a reserva tem de ser feita com antecedência — nem sempre com dias de antecedência, mas também não à porta — um passeio na Levada do Caldeirão Verde a partir das Queimadas exige agora uma decisão na véspera, por vezes ainda mais cedo se a época estiver movimentada.

Isso é uma verdadeira mudança na forma de planear uma viagem centrada em caminhadas aqui. Se está a construir uma semana à volta de três ou quatro dias de levada, já não está a improvisar consoante a previsão do tempo — está a reservar com antecedência trilhos específicos para dias específicos e depois a esperar que o tempo na montanha coopere com um plano feito 48 horas antes. O tempo na Madeira nem sempre coopera. O trilho também pode fechar por completo depois de chuva forte, e nesse caso a reserva de nada serve.

Acabei por fazer o que agora recomendaria a qualquer pessoa: escolher os dois ou três trilhos prioritários antes de aterrar, reservar com alguma folga para os dias com melhores probabilidades de bom tempo, e estar pronto para reajustar. Trocámos um dia reservado nos Balcões a partir do Ribeiro Frio depois de um início chuvoso ter transformado o caminho em lama, e voltámos a reservar para dois dias depois — sem drama, apenas uma mensagem e uma reserva alterada, mas só porque já sabíamos que o sistema existia.

Não vou transformar isto num guia passo a passo do portal de reservas aqui — essa parte mecânica, o site exato, o documento necessário, com quanta antecedência reservar — pertence à página dedicada de autorizações e taxas dos trilhos, e muda com frequência suficiente para preferir enviar-vos para lá em vez de embutir uma captura de ecrã numa história pessoal que estará desatualizada dentro de um ano.

O que diria a mim próprio antes dessa viagem

Incluam a taxa no plano da mesma forma que incluiriam o aluguer de um carro ou um bilhete de museu — pequena, esperada, não negociável. Não assumam que uma levada é gratuita só porque parece um caminho público; se tem um número PR, não é. E também não assumam que todos os passeios na Madeira precisam de reserva — grande parte do que torna a ilha especial fica completamente fora da rede paga. O Fanal e o planalto mais alargado do Paul da Serra, por exemplo, são maioritariamente caminhadas abertas, e não um único corredor com bilhete.

Se um dia de levada totalmente sinalizado não é o que procuram, ou a janela de reserva não coincide com as vossas datas, um passeio guiado evita todo o planeamento — outra pessoa fica com a reserva e a decisão sobre o tempo. Na minha última viagem fiz um

passeio de meio-dia numa levada com um guia local

numa manhã em que não tinha conseguido reservar sozinho, e um

passeio guiado ao longo da crista do Larano

cujos detalhes de acesso não teria descoberto por conta própria. Nenhum dos dois pareceu um prémio de consolação.

Para quem procura as fotografias de cartão-postal em vez da quilometragem, um

passeio pela floresta do Fanal com refeição incluída

ou um

passeio de jipe ao nascer do sol até ao Pico do Arieiro

cobre terreno que a rede de trilhos pagos nem sequer toca — sem taxa PR, sem janela de reserva a cumprir, apenas um veículo a tratar do madrugar incómodo por vocês.

O veredicto sincero

Três euros por trilho não mudaram se a Madeira valia a viagem. Mudaram a forma como planeei a viagem — transformando uma sucessão de manhãs espontâneas em duas ou três reservas deliberadas, feitas um ou dois dias antes, com um plano de recurso dependente do tempo desde o início. É um pequeno ajuste, uma vez que se sabe que vem aí. O problema nunca foi a taxa. Foi descobri-la numa fila no Rabaçal, com a mochila já feita para um passeio que afinal não tinha reservado.

Leiam o guia levadas explicadas e a lista dos melhores passeios de levada antes de construírem um itinerário à volta deles, verifiquem o tempo na montanha e o que vestir para que um dia reservado não se transforme num trilho fechado, e mantenham uma noção aproximada de quanto custa uma semana aqui para que os 3 € por trilho fiquem em contexto e não sejam uma surpresa no primeiro dia.

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